Privilégios

(Não sei porque raios eu me sinto mais inspirado para escrever no sábado à noite. Sério, 'to tentando escrever esse texto há uns três dias, mas não sai. Foda-se.)

Eu estava acompanhando, só lendo mesmo, uma discussão no Facebook sobre a existência do (mitológico) racismo invertido. Aí vi que um dos argumentos usados para defendê-lo foi "você sabia que os brancos também foram escravizados????? você sabia que existiu UM escravo loiro e de olhos azuis????". A partir daí, fiquei pensando no ponto em que o ser humano chega para não dar o braço a torcer e admitir (nem 'to falando em repensar) seus privilégios.

Eu, Caio, 19 anos, paulistano, universitário, branco, homem cisgênero, de classe média, com bases cristãs (embora sem ligações com a crença e com o culto), masculinizado, mas homossexual. Se não houvesse esse "mas", teria 100% dos privilégios garantidos e poderia usar camisa pólo, pedir impeachment e ser um babaca machista e preconceituoso (brincadeira, não chora). Na verdade, pela minha condição, a minha orientação sexual pouco importa porque, como já escrevi, sou lido como heterossexual. Eu percebo minha condição especial na sociedade e não concordo com ela. Não faço mais que minha obrigação, na verdade.

Eu li uma entrevista da Lia Schucman, uma psicóloga badass da USP, que ela já começa falando que quase todos os brancos são racistas. Eu estranhei num primeiro momento — fiquei "como assim! Não sou racista, tenho até amigos! —, mas lendo mais sobre o assunto percebi que isso era um exemplo claro de negação de privilégios, que eu tanto criticava. Percebi que são justamente esses privilégios que me faz um opressor em potencial. Não é que o racismo está no DNA do branco; é que, culturalmente, os brancos são ensinados paulatinamente que são superiores aos não-brancos. Não estou falando que uma mãe branca chegue para seu filho e fale "oi, querido, tudo bem? vem cá, você sabia que você é superior ao seu amiguinho negro? nãooo? pois é, tá sabendo". Não. Não necessariamente. Desde crianças, não vemos (muitos) representantes não-brancos ocupando lugares de privilégios na sociedade (ainda bem que isso tá mudando!). E como as gerações novas sempre se espelham nas mais velhas (vide Madonna e Lady Gaga), esse sistema vai ser repetido.

Eu sei que não posso falar com propriedade sobre o racismo, porque nunca o sofri. Mas esse exemplo é aplicável em todas situações em que há um aprendizado da superioridade da maioria. Todo branco é ensinado a ser racista; todo homem, machista; todo cis, transfóbico. Isso suscita outro conceito explicado pela Lia que é o "medo da minoria", tão presente nos discursos atuais. Quando uma minoria passa a galgar patamares e espaços somente ocupados por maiorias, com ou sem uma intervenção estatal ou de outra instituição social, levanta-se o burburinho de "mas isso é um privilégio! somos todos iguais!!!!". Não somos todos iguais. Esse o discurso meritocrata e universalista de igualdade é balela. É óbvio que existem privilégios sociais construídos há muito tempo e que dão a falsa ilusão de mérito. Afinal, foi sempre assim, né? Por que tem que mudar? É fácil alguém com os privilégios garantidos apontar o dedo e ser contra, por exemplo, ao casamento gay ou às cotas, porque o dele já está salvaguardado (segunda vez que uso essa palavra).

Saber que você tem alguns privilégios já é o caminho para ser alguém menos preconceituoso. Só pensa sobre isso. Esse assunto tem muito pano pra manga.

Teoria da organização política – vol. I (projeto)

Esse é um post que dá início a um projeto de estudos que tenho em mente. Como tudo nesse lugar, ele é mais uma coisa pessoal do que social. Mas, compartilhar isso me dará animo. Vamos a ele.

Na última sexta-feira, comprei um livro [infos abaixo] sobre Política, um assunto que eu gosto muito e entendo pouco. Quero ler um ou dois artigos a cada semana e colocar minhas opiniões aqui. “Resenhar” (com o máximo de aspas possível) é um bom jeito de aprender e ensinar.


Vamos ver o quê sai.


imagem da internet
Teoria da organização política – vol. I [de IV]


Autor: Ademar Bogo (org.); Engels, Marx, Lenin, Rosa e Mao

Número de páginas: 384

ISBN: 978-85-8739-470-3

Editora: Expressão Popular

Papeis

Ás vezes, eu fico pensando o quão inato é o nosso comportamento e o tanto que a nossa família, uma das instituições sociais basais, contribuem para ele. Seja como for, eu sou uma cópia do meu pai. A maior parte dos traços e gestos que eu tenha, por mais difícil que fora/seja admitir isso, são imitações inconscientes do que ele fora/é. Embora nossa sexualidade seja diferente e, portanto, é esperado que eu tenha traços mais característicos, é inegável que nós não sejamos parecidos. Mas isso ainda é conflituoso para mim.

Até que ponto o meu comportamento demonstra realmente o que eu sou e até que ponto ele esconde? E até que ponto isso é consciente?


Quando eu falo que sou gay, as pessoas ficam meio *é sério? nossa, você nem parece*. E isso é muito engraçado. Seria intrínseco a um homem homossexual ter voz fina, gostar de Britney e bater cabelo na boate? [não que isso seja errado, pelo contrário]. O que eu sei é que geralmente elas têm um choque ao perceber que minha voz é grossa, pago de indie gótica por gostar de artistas como a Lana Del Rey e prefiro ficar em casa, num sábado, assistindo Netflix [ou escrevendo num blog].

Eu tenho pensado nisso desde que tenho pesquisado mais sobre esterótipo para um trabalho. Se você levanta uma bandeira, passa a ter um papel social e ações que comporiam, teoricamente, seu jeito natural de ser. Meu trabalho era sobre o(s) estereótipo(s) dos/as transexuais nos meios de comunicação. Não era seu foco discutir as "máscaras sociais", mas como esses estereótipos estavam fixados no subconsciente da população geral. Mas, passei a me perguntar até que ponto eu não estava tentando fugir do estereótipo do gay-britney-spears alegando "ser do jeito que sou" e o papel que cada um de nós temos no movimento LGBTQ. Até que ponto eu usei uma máscara de algo que nunca quis ser, mas me acostumei a ser. Até que ponto eu internalizei o preconceito e isso me fez tornar o que sou hoje. Até que ponto eu salvaguardo meus privilégios por meio do meu comportamento.


A questão é que sou tão viado quanto quem é mais feminino e não há por que ter problemas com isso. Gosto que as pessoas me leiam como homossexual. Sempre rio quando um amigo me chama de viado. Traz, para minha vivência, alguma cor, alguma coisa que eu penso “eu represento isso, posso mudar a cabeça das pessoas”, embora isso fosse inimaginável pra mim há algum tempo. Passei a ter, de um tempo para cá, uma pulga atrás da orelha que não me para de me encher e falar “quem é você? que papel você escolheu ter no mundo, cara?”. E, a partir daí, me sinto insatisfeito com meu comportamento muitas vezes impassível e apático. Ficar na zona de conforto nunca foi uma coisa que admirei.

Eu concordo muito com os LGBTQs que falam que gay masculinizado não muda a realidade do movimento. Não movimenta nada. Quem muda mesmo é o gay babadeiro, que usa salto nas ruas de paralelepípedo do interior. Mas, seria certo mudar o meu jeito natural (ou costumeiro) de ser para fazer mais diferença para esse movimento que eu tanto gosto?

Tenho conversado com um amigo (babadeiro do interior) sobre isso e ele me trouxe um(a tentativa de) consolo. A verdade é que todo mundo tem um papel a exercer no movimento e tem espaço para todo mundo. Ele me alertou que sou o chato-do-facebook-que-não-para-de-falar-de-lgbtismos. Que um papel mais político é tão importante quanto o papel de dar a cara pra bater.

Ainda não me satisfaço totalmente com esse papel de político e debatedor de facebook. Quem dá a cara pra bater off-line [e que, muitas vezes, apanha mesmo] pode até não perceber, mas é muito mais político que alguém que só digita.


Não sei como mudar.
Sem falar que o armário do militante de facebook é tão confortável...

Balanço

Retomando atividades nesse blog. Eu realmente espero não desistir, como eu já fiz com muitas coisas. Inclusive, com esse mesmo blog.


Olhando para dois anos atrás, quando fiz a ‘primeira versão’ disso aqui, vejo o quanto eu mudei. Primeiro, que merda de nome era aquele que eu dei? Depois, de modo mais geral, eu era um garoto inseguro, que tinha acabado de desistir de uma graduação e estava procurando algo que o motivasse. Estava confuso quanto o meu futuro, agarrando qualquer chance para ser tudo, menos eu. Queria mostrar algo que eu não era e nunca fui, que eu até poderia sonhar em ser, mas não era. Eram alter egos criados numa mente confusa, que se adaptavam aos mais diferentes contextos.

Isso é incrível, né? Eu estou fazendo um trabalho sobre máscaras e pude perceber que não são somente a sociedade de hoje que tenta fugir do que é. Desde sempre, os humanos se portam como se fossem outro para (1) se adaptarem às mais diversas situações, (2) agradarem as pessoas e seus padrões de normalidade/sanidade e (3) serem pessoas, supostamente, felizes e encaixadas. Mas é besteira.

Dois anos depois, sou mais maduro. Ainda inseguro [nem sei se vou mostrar isso pra alguém]. Mas sem máscaras, mais decidido e mais feliz. Mais atarefado porque de fácil estudar Lazer e Turismo não tem n-a-d-a. Sem desistir por mais que seja foda pra caralho. Sem medo de mostrar o que eu sou ou minhas opiniões. Sou o que sou; penso o que eu penso.

[adendos: aquela certeza de que esse texto ficou muito 'sou uma blogueira gótica da capricho'; se você entendeu alguma coisa desse texto, meus parabéns. é pessoalmente confuso]