Ás vezes, eu fico pensando o quão inato é o nosso
comportamento e o tanto que a nossa família, uma das instituições sociais
basais, contribuem para ele. Seja como for, eu sou uma cópia do meu pai. A
maior parte dos traços e gestos que eu tenha, por mais difícil que fora/seja
admitir isso, são imitações inconscientes do que ele fora/é. Embora nossa
sexualidade seja diferente e, portanto, é esperado que eu tenha traços mais
característicos, é inegável que nós não sejamos parecidos. Mas isso ainda é
conflituoso para mim.
Até que ponto o meu comportamento demonstra realmente o que
eu sou e até que ponto ele esconde? E até que ponto isso é consciente?

Quando eu falo que sou gay, as pessoas ficam meio *é sério? nossa, você nem
parece*. E isso é muito engraçado. Seria intrínseco a um homem homossexual ter
voz fina, gostar de Britney e bater cabelo na boate? [não que isso seja errado,
pelo contrário]. O que eu sei é que geralmente elas têm um choque ao perceber
que minha voz é grossa, pago de indie gótica por gostar de artistas como a Lana
Del Rey e prefiro ficar em casa, num sábado, assistindo Netflix [ou escrevendo
num blog].
Eu tenho pensado nisso desde que tenho pesquisado mais
sobre esterótipo para um trabalho. Se você levanta uma bandeira, passa a ter um
papel social e ações que comporiam, teoricamente, seu jeito natural de ser. Meu trabalho era sobre
o(s) estereótipo(s) dos/as transexuais nos meios de comunicação. Não era seu foco
discutir as "máscaras sociais", mas como esses estereótipos estavam
fixados no subconsciente da população geral. Mas, passei a me perguntar até que
ponto eu não estava tentando fugir do estereótipo do gay-britney-spears alegando
"ser do jeito que sou" e o papel que cada um de nós temos no
movimento LGBTQ. Até que ponto eu usei uma máscara de algo que nunca quis ser,
mas me acostumei a ser. Até que ponto eu
internalizei o preconceito e isso me fez tornar o que sou hoje. Até que ponto
eu salvaguardo meus privilégios por meio do meu comportamento.
A questão é que sou tão viado quanto quem é mais feminino e não há por que ter
problemas com isso. Gosto que as pessoas me leiam
como homossexual. Sempre rio quando um amigo me chama de viado. Traz, para
minha vivência, alguma cor, alguma coisa que eu penso “eu represento isso,
posso mudar a cabeça das pessoas”, embora isso fosse inimaginável pra mim há
algum tempo. Passei a ter, de um tempo para cá, uma pulga atrás da orelha que
não me para de me encher e falar “quem é você? que papel você escolheu ter no
mundo, cara?”. E, a partir daí, me sinto insatisfeito com meu comportamento
muitas vezes impassível e apático. Ficar na zona de conforto nunca foi uma
coisa que admirei.
Eu concordo muito com os LGBTQs que falam que gay
masculinizado não muda a realidade do movimento. Não movimenta nada. Quem muda
mesmo é o gay babadeiro, que usa salto nas ruas de paralelepípedo do interior. Mas,
seria certo mudar o meu jeito natural
(ou costumeiro) de ser para fazer
mais diferença para esse movimento que eu tanto gosto?
Tenho conversado com um amigo (babadeiro do interior) sobre
isso e ele me trouxe um(a tentativa de) consolo. A verdade é que todo mundo tem
um papel a exercer no movimento e tem espaço para todo mundo. Ele me alertou
que sou o chato-do-facebook-que-não-para-de-falar-de-lgbtismos. Que um papel
mais político é tão importante quanto o papel de dar a cara pra bater.
Ainda não me satisfaço totalmente com esse papel de
político e debatedor de facebook. Quem dá a cara pra bater off-line [e que,
muitas vezes, apanha mesmo] pode até não perceber, mas é muito mais político
que alguém que só digita.
Não sei como mudar.
Sem falar que o armário do militante de facebook é tão confortável...





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