O Boticário

Não poderia perder a oportunidade de falar sobre esse comercial d’O Boticário.
Eu tenho alguns elogios para fazer para campanha e algumas ressalvas. Primeiro, aos elogios.

É louvável por parte de uma empresa, no meio desse mar reacionário que estamos tendo nos últimos tempos e num país (laico, no papel) que tem uma Bancada Evangélica (!!!!!) moralizadora, fazer um comercial com casais homossexuais. Mostra que há naturalidade nas relações homoafetivas, estando em igual pé com as relações heteroafetivas, como até colocado no vídeo. Mostra que gays também podem ter relações sérias e que não é ~só~ putaria. Que o amor (o beijo, o sexo, a vida) gay não é uma coisa anormal, de sete cabeças. Que gays podem dar presentes assim, como um perfume, no dia dos namorados.

Também, coloca a mulher como muito mais que um objeto de prazer, mas como produtora deste. Pode parecer que não, mas muitos ainda acham que mulher que deseja sexualmente outra pessoa, é puta. Porque não é papel dela desejar, e sim ser passiva do desejo. E colocar duas mulheres num relacionamento homoafetivo (e a própria figura da lésbica como um todo, né) serve para desmentir isso.

Mostra, também, um cara mais velho num relacionamento gay, assumindo que isso não é um fenômeno atual ou só dos jovens, "só uma fase". É só estudar um pouquinho de História, né gente?

Como eu já comentei algumas vezes, esse tipo de iniciativa cria um ambiente de familiaridade para as pessoas num geral e joga na cara delas algo que fingiam não ver. E, para as que não são tão cabeça-fechada, um novo olhar sobre essas condições. É mais que óbvio o papel educativo da televisão. As pessoas aprendem por osmose as coisas que ela fala, não tem jeito. Caso contrário, por que existiriam propagandas?

Outra coisa que eu achei de bom tom foi que a empresa não deu para trás, não cagou no pau quando confrontada pelos reacionários. Não ficou cheia de meia culpa para não perder um público. Embora, obviamente, isso já tenha sido pensado.

Masssss...

Isso tudo parece ser lindo, mas esse vídeo não pode ser tomado como representativo de uma classe tão diversificada como a LGBT. Não é um material de militância e, dificilmente, algo que passe na televisão o será.

Porque as empresas, de um modo geral, querem chamar a atenção para o produto que elas estão vendendo. E, para isso, elas precisarão racistas e transfóbicas, infelizmente. Essas empresas (e a maior parte da sociedade) não veem essas classes como modelo a ser seguido. E elas precisam se basear nesse modelo para que o seu consumidor se sinta tocado e queira ser o personagem do comercial, com o produto em sua posse. Seria ótimo se esses segmentos fossem representados em tudo. Mas, como eu já disse, as pessoas que estão fazendo esse tipo de ação estão cagando sobre qualquer representatividade, ou sobre o qualquer efeito social (que não tenha a ver com o lucro que eles terão). Até porque essa propaganda nem me representa. Só representa o Ideal Inatingível e a nossa busca constante para atingi-lo.

Sem falar que é muito mais fácil ser racista e transfóbico num ambiente corporativo do que ser homofóbico com gays cis, heteronormativos e higienizados, né? E isso não é um problema pontual, mas que perpassa toda comunicação social brasileira. Só olhar como a população negra é retratada na televisão e a relação negro protagonista/negro malandro. Não preciso nem falar da representação das pessoas transexuais nesses meios. Isso valeria um texto. Essas populações precisam de representatividade sim, e não é só em um comercial.

Anyway, a propaganda, do jeito que está, atingiu seu alvo. No momento em que escrevo isso, já bateu a marca de 2 milhões de visualizações (que são 1000 vezes o número de visualizações do último vídeo postado por eles), e causou uma briga de likes e deslikes (314K contra 174K). E eles estão de parabéns. Não por se tornar um pink money, (até porque eles não fizeram isso definitivamente). Não porque despertou minha vontade de comprar o produto, embora tenha influenciado muita gente (tem até campanha de #CompreOBoticário no Facebook). Mas por terem incomodado tanto, que houve gente que veio a público reclamar. Por serem capazes de mexer nesse vespeiro. E aguentarem as ferroadas. E os possíveis boicotes, que seriam risíveis.

Mas isso é assunto para o próximo texto, onde comentarei sobre as ações reacionárias dessa campanha e sobre a tênue (nem tanto, vai...) linha entre opinião e preconceito.

ps: e o prêmio de melhor tumblr do ano vai para http://aproveitaeboicota.tumblr.com/


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